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A leitura das ruas

leitura-ruasA primeira coisa a ser dita, é que a atitude da Presidente Dilma ao convocar uma reunião emergencial com Governadores e Prefeitos, demonstra a necessidade de medidas urgentes em diversas áreas, entre elas a Saúde Pública.

Deixa claro também certo desespero eleitoral do Governo Federal, que as vésperas de um evento do porte de uma Copa do Mundo, seguida de uma eleição presidencial, faz aparecer a figura da insegurança da reeleição.

Pela primeira vez desde a posse do Lula em 01.01.2003, o PT se preocupa com uma inevitável e fragorosa derrota.

O problema de hoje não é tanto discutir uma possível derrota nas urnas, mas sim se os vitoriosos teriam a capacidade de transformar nossos anseios em realidade, caso contrário seria trocar seis por meia-dúzia.

A proposta da Presidente Dilma em transformar a Reforma Política num Pacto Nacional, por si só deixa as vias do desespero bem claras. Uma consulta popular para instalação de uma constituinte com o objetivo de dar ao Brasil uma nova cara na organização político-partidária nos parece um ato um tanto insano, despreparado e mais voltado ao imediatismo de resolver as coisas num atropelo diretamente ligado à possibilidade de uma derrota nas urnas em 2014.

 Temos que considerar, que reformas são realmente necessárias e urgentes, porém a reforma política está na pauta desde 2007 e não andou, obviamente por envolver interesses de toda ordem, inclusive os mais escusos, sem entrar no mérito se patrocinado por este ou aquele partido político, porém com vontade política e se utilizando do poder da maioria o Governo Federal poderia já ter resolvido o problema sem deixar chegar ao ponto crítico de agora.

Na prática instalar uma Constituinte não é bem assim. O primeiro resultado seria a paralisação do Congresso Nacional por conta da eleição dos Constituintes e o esquecimento dos temas de interesse popular.

Acreditamos que atropelar as coisas agora é mais uma irresponsabilidade, é mais uma conta para o povo pagar, cujo único e principal objetivo seria a reeleição do PT em 2014.

Não entramos no mérito se esta reeleição deva ou não acontecer, se apoiamos ou não, mas colocamos a discussão de outros temas num nível acima da disputa eleitoral, exemplificando através da discussão urgente da PEC/37, que no nosso modo de ver enquanto entidade voltada para os interesses de milhares de pessoas, deveria ser o primeiro da pauta a partir do momento que trata de transparência total, ou seja, a PEC/37 se aprovada nos tira o direito indireto de investigar os políticos como cidadãos via Ministério Público.

Entendemos que a discussão desse tema é a chave de tudo. Dar início ao debate amplo e democrático em torno de algo eleito pelas manifestações como tão relevante, seria o ponto de partida para o Governo Federal retomar sua caminhada no rumo certo, seria uma forma de buscar algum apoio popular, que por menor que fosse já seria um bom começo.

É necessário um esforço em todos os níveis sociais com o objetivo de “ler” corretamente as ruas. Temos que ter a capacidade de identificar quem são as pessoas que se manifestam. Que geração é esta? Como se diferenciam de nós?

Nas décadas de 80 e 90 nós éramos a “geração do protesto”, todavia acostumados com o marasmo das decisões políticas importantes, coisa inserida nas nossas vidas desde a infância, tínhamos apenas os meios de comunicação normais, rádio, televisão e jornal como forma de disseminação de ideias. A estes meios estávamos atrelados por falta de opção, fomos até vítimas da manipulação da Rede Globo de Televisão ao editar o debate dos candidatos presidenciais Lula e Collor. Existia a consciência de que as coisas nunca mudariam tão rápido, mas hoje acordamos para uma nova realidade.

Nossa juventude “é virtual”, vive em tempo real e quer soluções em tempo real, numa constatação de que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não estão preparados para atender o clamor popular da juventude na mesma velocidade.

O manifestante de hoje tinha 10 anos de idade na eleição do Lula em 2002 e de lá para cá, nós mesmos os “armamos” com toda a parafernália tecnológica.

Na verdade demos aos nossos filhos e netos o acesso aos acontecimentos em tempo real e eles, embora quietos, tomaram conhecimento de tudo que se passava, acumularam descontentamentos e desilusões e sem que nós percebêssemos, bastou o estopim das passagens de ônibus para uma explosão sem precedentes e que vai mudar o Brasil.

Um dia eu disse que nada aconteceria nunca, porque nossos jovens eram do tipo da revolução via “facebook”, que se manifestariam através de um Note ou um Tablet “debaixo da cama”.

Obrigado Meu Deus por viver isto! Eu estava enganado e hoje me emociono ao ver meus filhos politizados e com opinião. Graças a Deus eu me enganei e agora confio novamente, que esta geração pode mudar o futuro.

A PEC/37 e a PEC/33 podem muito bem serem arquivadas por um acordo de lideranças, mas nós acreditamos que o Congresso Nacional não vai querer perder a oportunidade de ir ao microfone, um por um e dizer um sonoro “NÃO” e esses Projetos de Emenda Constitucional, tal qual fizeram na cassação do Collor. É possível que sequer os autores desses projetos votem a favor da aprovação.

Da mesma forma a votação do Fator Previdenciário não tardará, CPI dos Gastos da Copa também não e assim outras propostas de interesse direto da população serão votadas.

Nossos parlamentares são da nossa geração e cometeram o mesmo erro de avaliação que cometemos em relação aos nossos jovens e agora a coisa explodiu. Não haverá mais tolerância para o marasmo, o protelatório contumaz da política brasileira em discutir os temas de interesse do trabalhador, do estudante, do aposentado e das demais classes sofridas da população. Bastará uma sinalização de solução de continuidade, que o povo vai para as ruas novamente. É o preço do avanço tecnológico das comunicações.

Hoje nem a Rede Globo com todo seu aparato tem o poder de manipular a juventude. Graças a Deus esse dia chegou! A juventude decretou o fim da hipocrisia nos meios de comunicação de massa.

Por outro lado nos chamou a atenção a urgência, a insistência da Presidente da República em apresentar uma solução para a Saúde Pública via contratação e principalmente INTERIORIZAÇÃO DE MÉDICOS, chegando ao extremo de apresentar profissionais estrangeiros em contrato emergencial como capazes de amenizar a crise e dar uma resposta aos manifestantes.

Para nós, ex-funcionários do Banco do Brasil ficam parecendo “que já vimos esse filme antes”.

Qualquer um de nós que tenha em seu convívio jovens médicos, tem a obrigação de alertá-los e dar conhecimento da história dos funcionários do Banco do Brasil, que no passado foram chamados pelo Governo Federal para resolver o problema da necessidade de avanço das fronteiras agrícolas.

Tal qual a ideia da Presidente Dilma hoje de atender as regiões carentes e inóspitas interiorizando jovens médicos, nós ouvimos este mesmo “canto da sereia”. Acreditamos na promessa de uma vida segura, de uma estabilidade financeira sonhada por toda a população e entregamos nossas vidas ao projeto de crescer profissionalmente ao mesmo tempo em que éramos orgulhosamente os agentes do desenvolvimento do Brasil.

Fizemos nossa parte com louvor e quando não éramos mais necessários, fomos simplesmente descartados, demitidos e humilhados.

Que o Sindicato Médico não cometa o mesmo erro. Que promova um debate amplo com o Governo Federal voltado principalmente para um plano de carreira sólido e consistente, que dê a esses jovens não apenas a garantia de um futuro seguro, mas também o direito e as condições para que se mantenham em aperfeiçoamento constante nos grandes centros, pois assim estarão preparados para enfrentar o mercado de trabalho quando o Governo Federal descartá-los, diferentemente dos funcionários do Banco do Brasil, a quem nunca foi dada a chance de formação profissional, deixando-os no desemprego e a mercê de todas as dificuldades enfrentadas até hoje.



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Autor

Gaúcho, aposentado, natural de Guaíba. Ex-funcionário do Banco do Brasil, no período de 1977-1995. Atual Presidente da UPD – União dos Pedevistas e Demitidos do BB, em Porto Alegre (RS). Acesse: www.upd.net.br.

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